quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

MÓDULO DA VINCI - Segredos do Homem Vitruviano - parte 2



DESCONSTRUINDO O HOMEM VITRUVIANO

A analise de um desenho sob o ponto de vista da Semiótica permite fazer algumas considerações a respeito do Homem Vitruviano. Quando se aborda uma obra seja literária ou visual as relações dos actantes se revestem de especificidades que devem ser ressaltadas:

DESTINADOR e DESTINATÁRIO.

Da Vinci se desdobra em:
1. Destinador/Narrador – aquele que produziu o desenho;
2. Destinador/Manipulador – aquele que dotou um sujeito de habilidades para realizar uma tarefa;
3. Destinador/Julgador – aquele que sancionara o sujeito pela sua ação.
Nas posições dos Destinatários aparecem:
  1. Destinatário/Enunciatário – o espectador do desenho;
  2. Destinatário/Manipulado – o sujeito do enunciado (o homem desenhado);
  3. Destinatário/Julgado – o sujeito sancionado (o homem desenhado).

    O Destinatário/Enunciatário (quem observa o desenho) tem, portanto que fazer uma dupla leitura. Em primeiro lugar decodificar a mensagem do sujeito do enunciado, isto é, interpretar o que diz o “texto plástico”, e em seguida decodificar a mensagem do autor que se manifesta por trás da história contada. Tenhamos em mente os saltos na História e na Geografia, esclarecendo: de Da Vinci a Vitruvius e de Da Vinci até nós.

    SUJEITOS E OBJETOS
     A figura de um homem cujos membros estão duplicados levanta a primeira questão: quantos são os sujeitos? Possíveis três hipóteses:
    a.- Um sujeito em duas instâncias distintas (de tempo ou espaço);
    b - Dois sujeitos ;
    c - Um sujeito dividido (instância poética ou mitológica).

    À figura humana já atribuímos o papel de SUJEITO.
    Às figuras geométricas chamamos de OBJETOS.
    Duas formas primitivas que se interseccionam, aparentemente dois objetos, mas podemos questionar. Hipoteticamente:
    a - Dois objetos;

    O DESENHO ORIGINAL 
     
    Elaborado sobre uma folha de papel branca e traços na cor sépia, duas figuras geométricas semi concêntricas envolvem uma figura humana com os membros duplicados. Traços precisos, proporções anatômicas definem o desenho do Homem. Discretas manchas sombreiam o lado esquerdo do desenho (cabelos, rosto, mãos, axila e pé). Linhas horizontais contornam o corpo humano criando um efeito de irradiação do corpo para fora. Calor, aura?Todos os membros da figura humana estão duplicados:
    -Um par de braços erguidos à altura dos ombros (horizontal);
    -Um par de braços erguidos à altura da cabeça (diagonal);
    -Um par de pernas juntas (pés no nível mais baixo);
    -Um par de pernas separadas (pés no nível um pouco mais alto);
    -Sexo flácido (vertical);
    -Sexo erecto (horizontal).

    Os pés direitos apontam para frente, enquanto os pés esquerdos estão voltados para o lado esquerdo. Este detalhe chama a atenção dentro de uma composição simétrica. Existem outros que apontaremos mais adiante.


    EIXOS: x, y, z.
    CENTRO DA CIRCUNFERÊNCIA: R
    CENTRO DO QUADRADO: S
    PONTOS DE ARTICULAÇÂO: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8.



                                          ESTRUTURA DO DESENHO DE DA VINCI

    Um eixo vertical (z) corta as três figuras, homem círculo e quadrado, revelando uma simetria quase absoluta.
    Um eixo horizontal (x) ao cruzar com z determina o centro da circunferência e o umbigo do homem, centro R.
    Outro eixo horizontal (y) divide o quadrado pela metade e ao cruzar z determina a posição do sexo da figura humana, centro S.
    O Homem tangencia as figuras geométricas em oito pontos. Cada ponto de tangência será identificado por um algarismo. Tais pontos serão chamados daqui por diante de pontos de articulação.

    REARTICULAÇÕES
    1a- LEITURA

    O Homem Vitruviano. Um sujeito do fazer.

    As relações construtivas do desenho denunciam a intenção de Da Vinci. A relação umbilical estabelece um vínculo com a mãe, com as origens, assim a circunferência remete ao primal. Na mesma vertente a relação através do sexo leva à reprodução, aos descendentes, portanto ao estabelecer uma referência quadrado/sexo, Leonardo remete ao futuro. As figuras geométricas recebem investimentos semânticos:


    Circunferência = Passado (antepassados)
    Quadrado = Futuro (descendentes)
    Circunferência + Quadrado = Tempo

    De Vitruvius a Leonardo e deste à posteridade.

    Um Destinador / Manipulador estabelece um contrato com um Destinatário / Manipulado: - ir ao passado, recolher dados sobre arquitetura, montar um modelo e endereçá-lo para o futuro. Ao tocar os pontas de articulação 1,3,5,7. (circunferência), o sujeito entra em conjunção com o passado. Passado representado pela tradição greco-romana, livros, documentos, monumentos, etc. Os dados coletados são implantados sobre o corpo do sujeito, passando ele mesmo a ser o modelo. Linhas retas balizam as proporções distribuídas pelo corpo e membros do sujeito.
    Abaixando os braços e juntando as pernas o sujeito se articula com os pontos 2, 4, 6 e 8, ocupa o quadrado, isto é, entra em conjunção com o futuro. A mudança de postura do sujeito revela uma transformação. Ocorreu uma transferência do conhecimento através dos tempos. Este sujeito comprovou sua competência. O objeto Tempo foi devidamente conquistado em suas duas instâncias. Sua sanção é positiva. Essa leitura tratou dois momentos distintos de um mesmo sujeito.
    Assim se percorre o patamar das estruturas discursivas, onde se processa a geração de sentido do “texto”, neste caso do desenho. A estrutura narrativa permite pensar em dois sujeitos. Vitruvius ocupando o centro do passado, e Da Vinci como o elo de transição para o futuro. É claro que uma atribuição autobiográfica a Leonardo Da Vinci é arbitrária. Tanto Vitruvius como Da Vinci se preocuparam com o agora e com o amanhã. Suas ideias contribuíram para transformar o mundo. Do Império Romano ao Renascimento acontece como que uma reatualização de valores. Resta fazer considerações à Estrutura Fundamental, ponto de partida da geração do sentido. Partindo de temas abstratos VIDA X MORTE (Homem), PASSADO X FUTURO (Tempo), Da Vinci questiona os destinos do Homem e da Humanidade.

    Duas perguntas inevitáveis:
    -O que significa a nudez?
    -Como se equaciona a espacialidade nessa primeira leitura?
       O Homem despido, deslocado de uma paisagem, coloca o espectador diante de um ser descontextualizado (no tempo e no espaço). Sem uma “roupagem cultural”, tem-se à frente uma figura que pode representar essa ou aquela época, esse ou aquele lugar. A figura assume uma dimensão universal (atemporal e aespacial), e como tal se constitui numa metáfora, isto é, a figura humana passa a representar a Humanidade e se concretiza na figura do homem.
    A ausência de uma paisagem figurativa como que coloca o Homem no infinito. Embora descontextualizado podemos dizer que o tema espaço está implícito na figura humana, visto que ele representa simbolicamente a construção arquitetônica, da qual ele Homem é a medida canônica. 
     Tomando-se o fator TEMPO em sua essência, abstraindo-se da linearidade passado presente futuro, surgem duas figuras humanas simultâneas. Como estão ligadas pelo centro umbilical, podem ser denominadas, por enquanto, de GÊMEOS. Estas figuras serão comentadas um pouco mais adiante. 
       O sujeito S1 tangencia o objeto na impossibilidade de retê-lo Submetido à ilusão do tempo presente, ele percebe que o presente é um futuro que a cada instante se converte em passado. Podemos dizer que a situação se inverte e o Homem se torna Objeto do Anti-sujeito Tempo. O próprio desenho sugere a figura humana como presa capturada por uma teia de aranha. Refém do ciclo do Tempo, o Sujeito olha para trás e para frente. Nas duas visões se consuma seu destino. No passado a morte de seus antepassados, no futuro a sua própria morte. Da angústia dessa consciência resulta a expressão grave do sujeito como veremos ao analisar seu rosto. O entendimento do Tempo, da Vida e da Morte, do destino humano, quer dizer, a conjunção S/O (sujeito/objeto), eufórica num primeiro momento tende para o disfórico com o transcorrer do tempo. A solução para vencer a Morte é a procriação, criando assim novas vidas. Como nada mais é possível fazer em relação ao passado, só o futuro pode ser planejado racionalmente.

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